Aspectos do vampiro da literatura ao cinema

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Escrito por Leandro Negreiros

Durante muito tempo manifestações vampíricas foram relacionadas ao desejo sexual. A literatura se encarregou de garantir que a associação entre ambos fosse certeira. E foi. Com a chegada do século XX, o cinema deu continuidade aos trabalhos, dessa forma, filmes como Drácula (1931) – estrelando Bela Lugosi no papel do icônico conde –, Drácula de Bram Stoker (1992) e Entrevista com o vampiro (1994), são exemplos, entre tantos outros, dessa expressiva comunhão.

Da literatura ao cinema, o mito do vampiro sobreviveu, ganhando fôlego diferenciado em realizações mais recentes, inclusive. Características como erudição e misantropia mantiveram-se, tanto quanto a altivez aristocrática e o intenso desejo sexual. Ou, como diriam alguns, o apetite, a necessidade do sangue de seres vivos, preferencialmente humanos.

Dos três filmes, dois apresentam perspectivas diferentes sobre o mesmo personagem, Drácula, enquanto o terceiro – e mais novo –  é a adaptação do romance homônimo de uma série chamada Crônicas vampirescas, da autora Anne Rice. É interessante notar a maneira como cada um articula o mito do vampiro. Em Drácula (1931), filme dirigido por Tod Browning, a caracterização do vampiro, com uma longa capa preta, cabelo penteado para trás e longos dentes afiados torna-se popular no imaginário cinematográfico, sendo utilizada com frequência, tanto em obras do gênero quanto em sátiras. Em preto e branco, o filme é o primeiro da trilogia de monstros clássicos da Universal Pictures.

Anos mais tarde, em 1992, o já renomado diretor Francis Ford Coppola responsabiliza-se pela adaptação do mesmo romance, chamada Drácula de Bram Stoker, contando com a presença de atores como Gary Oldman, Winona Ryder, Anthony Hopkins e Keanu Reeves. O roteiro atualiza a história do conde vampiro – antigo herói de batalha contra os turcos invasores no século XV –, morto-vivo que reencontra sua amada Elisabetha, reencarnada em Londres como a jovem Wilhelmina Murray (vivida por Winona Ryder). Nota-se ai uma alteração curiosa: Drácula assemelha-se a um anti-herói romântico, que resiste ao tempo na esperança de reaver sua grande paixão. Essa ideia fica clara em um dos pôsteres veiculados na época, com Mina nos braços de Drácula e os dizeres love never dies. Diferentemente do romance, no qual Drácula persegue Mina por ela ser a única integrante “desprotegida” do grupo responsável por seu extermínio, no filme há um forte vínculo afetivo entre ambos, uma paixão erótica levada ao extremo, e superada, dado o seu caráter sobrenatural e proibitivo.

Em Entrevista com o vampiro (1994), o roteiro explora o universo vampírico de Louis, vivido por Brad Pitt, dono de terras na Louisiana de fins do século XVIII, transformado em vampiro por Lestat (Tom Cruise). Melancólico e desiludido, Louis narra a história de como se tornou morto-vivo, sua viagem para a Europa e seu retorno aos EUA a um repórter, vivido por Christian Slater. É curiosa a dinâmica entre os personagens: Louis, antigo senhor de plantações, é transformado por Lestat, que encarna o aristocrático vampiro europeu de origem francesa. Entre altos e baixos, Louis não se satisfaz com a maneira como seu companheiro de aventuras leva a vida, aproveitando-se dos ingênuos humanos – do prazer sexual que eles proporcionam, bem como de suas fortunas e, principalmente, do sangue –; há, portanto, um contraste evidente: enquanto Louis procura o propósito por trás de sua existência, e por isso mesmo sente-se melancólico, Lestat encarna o temperamento dos clássicos vampiros literários do século XIX. Em um, a eternidade é motivo de aflição, em outro, de constantes comemorações. Em uma cena marcante, Lestat aparece cadavérico, pálido, com cabelos desgrenhados, tocando piano em um quarto em ruínas, com cortinas abertas para a noite em segundo plano, com todo o charme e horror que sua figura desperta.

Nos filmes citados, a inspiração para a composição dos personagens é a mesma: contos e romances clássicos do século anterior, responsáveis por povoar a imaginação de leitores durante anos. As relações eróticas que cercam as manifestações vampíricas não são mero acaso, pelo contrário, já que elementos como sangue, noite, morte, desejo e liberdade sexual, até mesmo a desilusão são características do cenário literário do século XIX, com o Romantismo e, posteriormente, o Decadentismo. O sujeito assombrado por sua natureza obscura é associado a temas de degeneração, a forças primitivas que nele operam; a representação cinematográfica do vampiro atua nesse sentido, ainda que apresente alterações sensíveis de acordo com a particularidade das obras realizadas.

Longe de esgotar todas as discussões possíveis a respeito do mito tão presente nos dias atuais, o erotismo relacionado ao vampiro é uma faceta relevante abordada com exaustão em várias obras. Ainda assim, generalizar todas as suas manifestações é incorrer no erro de desconsiderar aspectos particulares e, com isso, todo um universo de interpretações.

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