Perfume: a história de um assassino [Este texto contém spoilers]

 

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Escrito por Leandro Negreiros

Psicopatas e assassinos em série são objeto de fascinante escrutínio cinematográfico; desde Norman Bates, do clássico Psicose (1960), até Hannibal Lecter, renomado psiquiatra, canibal e fugitivo da polícia, personagens assim surgem nas telas enquanto, do outro, os telespectadores acompanham aflitos os acontecimentos. Outros nomes poderiam figurar nessa lista, como John Doe, de Se7en (1995), e Anton Chigurh, de Onde os fracos não tem vez (2007). Um nome, no entanto, chama a atenção: Jean-Baptiste Grenouille, personagem principal do filme Perfume: a história de um assassino.

Baseado no livro homônimo de Patrick Süskind, o filme lançado em 2007, com direção de Tom Tykwer, acompanha a trajetória de Jean-Baptiste e sua obsessão por perfumes, na realidade, restringir a complexidade desse aspecto a uma sentença é o mesmo que reduzir a narrativa desse estranho jovem a um lugar comum. Nascido na França, em meados do século XVIII, Jean-Baptiste é rejeitado por todos que se encarregam dele – sua mãe, acreditando que ele nasceria morto, assim como seus outros filhos, deixa-o jogado no chão enlameado do mercado de peixes parisiense e só se dá conta de que ele sobreviveu após ouvir seu choro; as crianças do orfanato para onde ele foi, temendo o fardo de um recém-nascido, tentam matá-lo sufocado –, somente ao conhecer um famoso perfumista em decadência, Giuseppe Baldini, o jovem ganha chances de exercer sua habilidade notória: a capacidade de distinguir e reconhecer odores e aromas. Baldini atua como mentor de Grenouille, ensinando a ele alguns segredos da arte dos perfumes, os quais são testados e aperfeiçoados em Grasse, por meio do assassinato de jovens mulheres.

É curioso notar que Jean-Baptiste encara seus atos como algo maior, como um feito artístico superior à compreensão dos demais e, nesse aspecto, nota-se o traço característico que move tantos personagens como ele que, como se destinados a façanhas extraordinárias, procurassem realizá-las. Ainda assim, há uma certa inocência que perpassa toda a atuação de Ben Wishaw, interprete de Jean-Baptiste. O ator, conhecido por sua atuação como Q na franquia 007, acerta ao conferir olhares atentos e perscrutadores sem, no entanto, flexionar em excesso suas expressões faciais (entre sobrancelhas baixas e lábios inexpressivos, suas reações variam levemente, reafirmando a pouca aptidão no entendimento de suas emoções), incorporando o soturno jovem francês. Além dele, atores como Dustin Hoffman (o mentor Giuseppe Baldini), Alan Rickman (Antoine Richis, pai protetor e membro do conselho da cidade) e John Hurt (o narrador da história) compõe o elenco.

Fato indispensável à compreensão da narrativa é o de que Jean-Baptiste não possui odor próprio – após um período de reclusão, ele percebe que é inodoro, diferentemente de todas as outras pessoas que conheceu, e, portanto, não possui nenhuma singularidade que o diferencie, que o enalteça no universo que o cerca, o que é motivo de profunda perturbação e descontentamento –, dessa forma, seus esforços para a criação de um perfume ideal combinam-se à necessidade de conferir a si odor característico: é a busca pela própria essência, na acepção filosófica do termo. Discute-se, então, essa busca, a qual é permeada por assassinatos de mulheres jovens e bonitas, cujas mortes pouco significam se analisadas à luz do grande propósito de tudo A beleza, por sinal, é enaltecida progressivamente através da mudança de ambiente; se, durante a primeira hora do longa, a paisagem parisiense é caracterizada por mais espaços fechados (o ateliê ou laboratório de Baldini, por exemplo), um pouco de lama e sujeira da cidade, já na metade os campos floridos, a incidência solar dão o tom da obra até o fim – do início ao fim, há interessante jogo de claro/escuro, vale a pena reparar –; também os assassinatos são tratados com o mesmo cuidado estilístico, veja-se o caso da primeira vítima, o manuseio das frutas, o realce da pele clara, do cabelo ruivo, nuances da composição.

Em meio a flores, texturas de pele, cores de cabelo, o filme delineia a principal característica da história original, o fascinante campo dos aromas e essências. As cores vivas, o olhar atento da câmera aos detalhes corporais, bem como a calma ao captá-los, expressam o universo no qual vive o protagonista, cercado pelas sugestões de um olfato aguçado. Mesmo a morte das personagens é seguida dos delicados rituais de extração da essência corporal, assim como se fazem com as flores, já na metade do longa.

No final, em uma das sequências mais significativas do filme, a multidão de pessoas aglomerada na praça esperando a execução do assassino, ao ser surpreendida pelo perfume inebriante enfim confeccionado, se entrega ao êxtase idílico provocado pelo aroma. Todos, membros do conselho da cidade responsáveis pelo julgamento de Grenouille, civis enfurecidos, padres, e até mesmo o carrasco, se entregam ao prazer da apreciação daquele perfume, se despem e se beijam, como se hipnotizados pela experiência diante de jovem, que exibe um lenço gotejado de seu perfume: ele finalmente é percebido, é sentido pelas pessoas ao redor e, por que não dizer, adorado. Ao fim e ao cabo, é, literalmente, consumido por alguns mendigos, até que não restem nem mesmo os farrapos da roupa que usava.

Suspense de extrema beleza, Perfume não é apenas a história de mais um assassino em série do cinema, é a trajetória de um jovem em busca de sua identidade no meio em que vive, a qual é percebida através de odores nem sempre agradáveis e experiências, em geral, traumáticas. A única certeza é a singularidade do personagem, sem dúvida, uma personalidade única.

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